terça-feira, 13 de março de 2012

CBF, Bonner e Hommer – Para Alguns Teixeira é Ídolo


Há alguns meses, publiquei um post (aqui) sobre as razões das diferenças entre a cobertura (ou falta dela) dispensada por Globo e Record aos escândalos envolvendo o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Só não pensei que as diferenças continuassem tão gritantes mesmo depois da renúncia daquele que muitos consideravam um monarca.

A Reportagem levada na última segunda-feira (12) ao ar pelo Jornal Nacional é quase uma última homenagem ao ex-presidente da CBF (aqui). Enquanto, a Record, em seu principal telejornal praticamente soltou fogos e reforçou o papel da emissora na queda de Teixeira (aqui).

O Jorna Nacional levou ao ar uma reportagem no modelo “de Bonner para Hommer” onde retrata Teixeira como o inventor do moderno futebol brasileiro. Trouxe patrocinadores para a seleção, que venceu 2 Copas do Mundo, 3 Copas das Federações e 5 Copas Américas.

Ter a sorte de contar com jogadores como Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho em suas melhores fases não conta? Será tão difícil atrair investidores para uma marca vinculada a nomes como Pelé, Garrincha e Rivelino, entre outros? Deve ter sido ele que revelou esses gênios da bola.

Além disso, segundo a Globo, Teixeira adotou o método de pontos corridos que permitiu aos clubes planejarem melhor suas receitas. Atualmente, os clubes são mais ricos, defende a reportagem do JN.

Até a adoção da fórmula dos pontos corridos, o método de disputa do Brasileirão mudava praticamente todos os anos. Quem acompanhava futebol tinha que aprender a cada ano uma fórmula diferente de como fariam para determinar quem seria o campeão do país. E o presidente era quem? Não era eu, nem o Lula.

Só adotaram os pontos corridos depois de muita insistência. Desde que me entendo por gente os campeonatos europeus seguem o formato de pontos corridos. O gênio Teixeira adotou o formato apenas em 2003. E os clubes tornaram-se mais ricos, embora devam até as calças, porque a economia melhorou. Provavelmente constam no currículo de Teixeira, os cargos de Ministro da Fazenda e Presidente do Banco Central também.

As denúncias de corrupção envolvendo o antigo mandachuva do futebol brasileiro eram de conhecimento público faz um certo tempo. A Globo levou ao ar em 2001 um Globo Repórter especial com várias denúncias de corrupção envolvendo Teixeira.

O programa teria sido uma espécie de pressão já que os direitos de transmissão dos jogos da seleção estavam próximos de serem renovados. Segundo, o próprio Teixeira em entrevista à Revista Piauí, a vingança foi marcar um Brasil x Argentina às 19h45, abrangendo o horário de duas novelas e o Jornal Nacional, privando a emissora de ganhar com anúncios publicitários no horário nobre. O que não aconteceria caso o jogo fosse marcado às 21h45, horário tradicional e que atende aos interesses comerciais da emissora.

As reportagens veiculadas pela platinada, capazes de incomodar Teixeira pararam por aí. E tudo continuou como antes. Até o ano fatídico de 2010. Quando a BBC publicou um programa com uma série de denúncias sobre a FIFA com acusações de recebimento propina por vários dirigentes de futebol. Entre eles estava Ricardo Teixeira. A Record resolveu repercutir o caso e junto às denúncias da BBC adicionou investigações próprias e antigas denúncias.

Alguns meses antes da série de reportagens sobre Ricardo Teixeira, a Record, turbinada, segundo alguns, pela venda superfaturada de venda de horários na madrugada para Igreja Universal; avançou sobre o Clube dos 13 para comprar os direitos de transmissão do campeonato brasileiro. Bpm lembrar que o proprietário da Record é líder espiritual da Universal.

A Record já havia derrotado a Globo na luta pelos direitos de transmissão do Pan de 2010 e das Olimpíadas de 2012, e estava obrigando a TV dos Marinho a pagar valores a cada dia maiores pelos direitos de transmissão dos principais campeonatos de futebol devido à concorrência, anteriormente inexistente.

O clube dos 13, entidade criada em 1987 para criar uma liga nacional já que a CBF não tinha condições financeiras de realizar o campeonato naquele ano, é quem negociava os direitos de transmissão e realizava a divisão do dinheiro. Era uma divisão draconiana com os clubes menores e sem representação na entidade.

Mas a nova divisão é ainda mais draconiana e foi feita sob medida para enriquecer Flamengo e Corinthians, que ganharam da Globo um reforço no caixa de R$ 20 milhões cada por terem convencido os demais clubes para entrarem numa negociação que favorecia justamente a dupla dinâmica. (aqui)

A ideia de Teixeira para contornar a situação foi aparelhar a entidade, colocando como mandatário, o ex-presidente do Flamengo Kleber Leite. Faltou combinar com os clubes. O vencedor foi Fábio Koff.

Contudo, o Clube dos 13 implodiu, pois a Globo resolveu negociar separadamente com cada clube, ignorando a mediação da entidade. A licitação, vencida pela Rede TV (A Record se retirou da palhaçada), acabou esvaziada.

Portanto, a Record, embora tenha assumido o louvável papel de bater forte em Ricardo Teixeira, talvez não o tenha feito apenas em defesa dos mais elevados padrões jornalísticos. Tinha seus próprios interesses. Por que não perseguiu o ex-presidente da CBF antes como já fazia, por exemplo, Juca Kfouri?

Essa homenagem “póstuma” a Teixeira no Jornal Nacional é esquisita, já que ele não mandaria mais em nada. Ou manda ainda? Talvez tenha boi na linha. O ex-governador de São Paulo José Maria Marin é o novo presidente, e é ligado à Teixeira.

O jornalista Cosme Rímoli disse em entrevista à Record News na última da última segunda-feira (12) que o sonho de Teixeira era deixar como sucessor na CBF o chefão dos esportes na Globo, Marcelo Campos Pinto. Será que ainda nutrem essa esperança?

quarta-feira, 7 de março de 2012

PIG X JEG – A Verdadeira Disputa Política Brasileira


Vejam onde o clima de cisão partidária dentro do jornalismo chegou no Brasil. A disputa está tão acirrada que os contendores foram organizados em siglas tal como os partidos. Se antes existia apenas o PIG (Partido da Imprensa Golpista), sigla criada pelo deputado Fernando Ferro (PT), que atuaria segundo seus detratores como um bloco partidário contra o governo, existe agora o JEG (Jornalismo da Esgotofera Governista), sigla criada pelo jornalista Reinaldo Azevedo, considerado “piguiano” por seus adversários, para agrupar os que atuariam em bloco para defender o governo.

Muitos caracteres já foram usados na disputa entre “piguianos” e “jeguianos”. A crítica dos Pigs aos Jegues é que estes são bancados por dinheiros de estatais controladas pelo governo federal. Muitos jegues, porém denunciam que os Pigs possuem a mesma boquinha nos estados onde a oposição governa.

Alguns governos estaduais comprariam assinaturas de revistas e jornais piguianos em quantidade assombrosa.Sem falar em revistas piguianas que, segundo as más línguas, pararam de funcionar por perder o seu supostamente único grande patrocínio, que viria de um banco estatal outrora pertencente a um governo tucano.

Já um dos jegues chegou a atacar a honra de um de seus atuais ídolos quando este era oposição. Seu atual ídolo ganhou até direito de resposta. Pigs e jegues sabem reconhecer quando é hora de mudar de ideia, ninguém pode negar.
A verdade é que piguianos consideram o termo PIG uma ofensa assim como os jeguianos devem pensar a mesma sobre a sigla JEG. Partidário é o outro, oras. Todos se acham isentos.

Piguianos e Jeguianos estão em duríssima contraposição em quase todos os temas. Até sobre se o Crô deve ou não terminar a novela das oito nos braços do motorista da Tereza Cristina, o Baltazar Zoiudo.

Mas dependendo do contexto geográfico, o PIG é governista, fazendo com que às vezes se comporte como o JEG no que tange à defesa intransigente dos governantes em alguns estados e cidades. Assim como o JEG se comporta como o PIG, dependendo do contexto geográfico e das alianças estabelecidas por Brasília.

É comum, de repente, um Jegue rever suas posições em relação a um político tão logo ele mude de posição em relação à Brasília. Os Pigs não ficam atrás. Caso um político resolva mudar de opinião em relação ao governo federal, eles mudam sua opinião sobre o político.

As versões de um e outro sobre os comportamentos dos políticos considerados adversários são as piores possíveis, logo o leitor deve ler os dois lados para conseguir arrumar dentro de sua mente uma versão isenta, para em seguida formar a sua própria opinião.

 Os partidos jornalísticos prejudicaram o leitor, que agora tem muito mais trabalho para se informar decentemente. Mas por outro lado, obrigam as pessoas a ler mais contribuindo para o hábito da leitura.

Reparem em uma coisa. A sigla PIG, remete ao verbete inglês pig, que significa porco, um bicho simpático, todavia imundo e que chafunda na lama. Já o seu contrário, JEG, remete ao jegue esse bichinho tão adorado, mas que é burro e ignorante, vai logo dando um coice em quem se aprochega. Nessa revolução dos bichos, os leitores devem ser as ovelhas, que precisam ser arrebanhadas para não se perderem no caminho.
O Revolucionário Fluxo de Informação PIG x JEG


Em face da importância desse fenômeno, resolvi dar uma contribuição científica construindo um fluxo de informação no contexto JEG X PIG. É apenas o começo. 

Pretendo continuar as minhas pesquisas para aprimorar o modelo de modo um pouco lento, pois estou no meio de uma pesquisa de doutorado. Poder ser a minha tese de livre-docência. Se eu conseguir um dia chegar a tal ponto será o trabalho de uma vida.

FALANDO SÉRIO
No auge da crise do mensalão, o deputado Fernando Ferro do PT de Pernambuco criou a sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista) para designar setores da Imprensa que tentariam desestabilizar o governo e derrubá-lo, mas foi adotado pelos chamados “blogueiros sujos”, nome jocoso dado a blogueiros que defendem o governo, para espinafrar a grande imprensa. Mas o termo atingiu o estrelato com a popularização da sigla pelo jornalista Paulo Henrique Amorim.

Essa divisão jornalística começou quando setores da imprensa resolveram atuar em um espaço que a oposição partidária não estava dando conta de ocupar. Esse não é o papel da imprensa, e essa atitude vem trazendo um péssimo resultado para o jornalismo brasileiro como um todo.

Daí surgiram cada vez mais defensores do governo na internet, gerando essa cisão, que não sei se é boa para o jornalismo nacional. É comum em outros países alguns meios declararem suas preferências políticas, mas por aqui essa partidarização acontece com uma alta dose de incivilidade. E para piorar a situação, a maioria ainda se diz imparcial.

terça-feira, 6 de março de 2012

A Economia Brasileira e os Alquimistas do Jornalismo Econômico


Como dizem por aí: Classe média sofre

É comum vermos ultimamente nos telejornais e no jornalismo impresso matérias sobre o espantoso aumento do volume de compras de brasileiros no exterior. Os turistas brasileiros são os que mais gastam no exterior. Para que se possa ter uma ideia, os brasileiros deixaram, em 2010, nada menos que 1,6 bilhão de dólares apenas em New York.

As tomadas externas dos telejornais com imagens de brasileiros chegando com carrinhos abarrotados de produtos importados a ponto de excederem o limite permitido pela alfândega para produtos estrangeiros são analisados pelo prisma da entrada absurda de dólares em decorrência do câmbio desvalorizado

A preocupação dos analistas midiáticos gira em torno do desequilíbrio na balança comercial gerada por essa grande quantidade de dinheiro que sai do país. Entre os diagnósticos está a alta carga tributária e o câmbio valorizado, o valor do Real capaz de gerar equilíbrio cambial no Brasil estaria em torno de R$ 2,30.

O ministro Guido Mantega chegou a afirmar a existência de uma guerra cambial devido à crise enfrentada pelas economias centrais, nesse momento obrigadas a desvalorizarem seu câmbio no intuito de aumentarem a competitividade de seu produto, e que o governo deveria enfrentá-la.

A Veja já ofereceu o seu remédio na última edição 2259: mais mercado, menos governo. Quando um remédio passa a ser receitado para todos os problemas há duas opções: ou é um placebo, ou fruto de alquimia. Aliás, os alquimistas passaram décadas tentando encontrar a fórmula do Elixir da Longa Vida. Como não existem mais alquimistas...

A grande contribuição dos alquimistas foi terem trilhado caminhos que não levaram a lugar algum, mostrando aos seus sucessores, os cientistas modernos, o que não fazer. Esse também é o grande trunfo do neoliberalismo, e sua principal conquista.

Fórmulas batidas são o forte da Veja. A matéria de capa da Revista lista algumas causas desse fenômeno, mas o problema está nas interpretações. Os problemas da demanda e da carga tributárias são dois dos apontados pela revista. A capacidade produtiva brasileira não está conseguindo suprir a demanda. Engraçado que o aumento dessa demanda se deu graças a algumas conquistas dos últimos cinco, seis anos, mas Veja não toca nesse ponto, apenas na desgraça.

O problema da demanda, segundo a publicação, seria equacionado caso o Brasil baixasse os seus impostos ou EUA aumentem os vigentes por lá. Um dos defeitos de nosso caótico sistema tributário, que a Veja sabiamente aponta, é o fato de os impostos no Brasil incidirem em maior parte sobre o consumo a despeito da renda, penalizando os mais pobres. Estes acabam pagando maior parte de sua renda ao Estado.

Mas os pobres penalizados pelo sistema tributário não viajam a NY para comprar I-pads, I-pods e roupas de marca. A classe média alta, que viaja regularmente aos EUA, passa, portanto, a pagar menos imposto ainda, o que a Veja não diz.

A carga fiscal no Brasil é realmente das mais altas e irracionais. E em um primeiro momento, a queda nas taxas de importação beneficiaria quem não pode viajar ao exterior. Mas em seguida, haveria um aumento absurdo do desemprego, já que as indústrias nacionais não poderiam concorrer com os produtos de fora. Isso já aconteceu antes, mas insistem.

O Brasil deve proteger sua indústria e os empregos locais, mas usando as taxas de importação como instrumento de pressão. Ou mantém a qualidade dos produtos em uma qualidade e preços aceitáveis, ou o governo abre o caminho para os produtos exportados. Essa pressão constante serviria, inclusive, para preparar a indústria nacional para exportar. O governo poderia relacionar os benefícios fiscais a metas de exportação.

Outros problemas lembrados pela revista são a Inflação e a Concorrência. No primeiro caso, o remédio é a diminuição dos gastos públicos. O Estado brasileiro seria grande. Falácia. A quantidade de funcionários per capta no Brasil é de 1 para cada 328 cidadãos, nos EUA essa relação é de 1 para 158, segundo levantamento do Ministério do Planejamento. Ou seja, em termos relativos temos a menos da metade de funcionários públicos do que a terra do livre mercado.

O nosso problema é o dinheiro mal gasto e escoado pelo ralo da corrupção. Além disso, se o Brasil quiser melhorar seus serviços públicos vai precisar de médicos, professores, administradores e toda sorte de profissionais para montar uma burocracia bem treinada.

A concorrência também não pode ser um fim último. Seria loucura implantar concorrência em setores onde estamos em desvantagem. Os EUA também fazem isso. Basta você perguntar a um produtor brasileiro de suco de laranja ou à Embraer que teve uma venda de aviões militares cancelada.

Aliás, os EUA e o Reino Unido adotaram desde 2008 respectivamente 105 e 86 medidas para proteger seu mercado interno. A china, 94, a Rússia, 156, e a Argentina, elevados 182 medidas. O Brasil adotou o número modesto de 80 medidas, de acordo com números do site Global Trade Alert divulgados pela revista Carta Capital. Mas nossos analistas teimam em que sejamos mais realistas que nossos supostos reis.

Ou seja, para a Veja não existe guerra cambial. Tudo é culpa de nossa incompetência. Desse jeito, é melhor Obama não deixar o tesouro dos EUA gastar dinheiro com corpo diplomático no Brasil. A Veja já defende os interesses norte-americanos com grande competência. Assim, o presidente norte-americano cortaria gastos e diminuiria o tamanho da máquina estatal estadunidense.

O CAPITALISMO DIMINUIU NOSSA DESIGUALDADE?
Quando termina a aula em forma de reportagem da disciplina “Brasil e Comércio Exterior no Contexto Neoliberal” ministrada pela Veja, eis que o aluno é brindado com outra lição sobre economia, dessa vez sobre desigualdade.

De acordo com a Veja, a crescente queda na desigualdade seria fruto do capitalismo. Ora, o capitalismo existe no Brasil há bastante tempo. E a desigualdade só resolveu cair de uns cinco anos para cá. A desigualdade tem aumentado nos países centrais ultimamente. E a culpa foi de quem?

A matéria é uma das mais mal feitas que li ultimamente. Carente de dados capazes de apoiar a tese da matéria. A autora argumenta que os salários dos trabalhadores portadores de um diploma universitário caiu, em razão do aumento dessa mão-de-obra no mercado, enquanto o valor dos rendimentos dos menos qualificados aumentou em função da demanda por essa mão-de-obra, que está mais escolarizada.

Ora, o período em que o capitalismo mais incluiu, foi justamente no que houve maior regulação estatal sobre a economia: a era de ouro do capitalismo, momento em que vigorava o Estado de Bem-Estar social odiado pela Veja.

Não foi citado os efeitos do detestado bolsa-família que permitiu às pessoas recusarem empregos semi-escravocristas com salários que às vezes não chegam à metade do mínimo, sem garantias trabalhistas e jornadas de trabalho que em muito superam as oito horas estipuladas por lei. Ora, se é para receber o mesmo valor do bolsa-família para ser explorado, é melhor ficar em casa. Mas se o empregador quiser pagar o mínimo, o triplo do benefício, e garantir os direitos trabalhistas, não há razão para ficar em casa, não é?

Daí vem o preconceito contra o Bolsa-família. O benefício tornou a manutenção de uma empregada doméstica um luxo. Quem estava acostumado a pagar pouco por alguém que, muitas vezes, trabalha o dia todo, mesmo em feriados, está vendo esse privilégio acabar.

Confesso que entendi esse ódio ao bolsa família há pouco tempo. Eu considerava esse comportamento irracional, mas, de acordo com nossa mentalidade escravocrata, é uma repulsa bastante racional. Quem gosta de perder privilégios?

Por isso os salários de garços e domésticas aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Houve aí a mão do estado e não a tal da mão invisível. Outro fator importante, são os programas estatais governamentais para aumentar o acesso ao ensino superior que aumentou a oferta por essa mão-de-obra, diminuindo a elevação de seu salário.

Para a Veja, essa queda auspiciosa começou no governo FHC, claro. Ninguém nega que a queda da inflação vinda com o Plano Real beneficiou os mais pobres, mas os benefícios fora limitados. Ao fim da era FHC, o salário mínimo era de R$ 140, bem menos de U$ 100 no câmbio da época.

Há setores da imprensa que se deleitam em espinafrar o Lula. Todavia entre as críticas feitas ao ex-presidente, uma das procedentes com certeza são seus devaneios de demiurgo. O famoso mantra do “Nunca antes na história desse país...” é uma prova disso. Lula é político, nada mais normal então que ele se dedique a fazer...política.

Também passo a entender um pouco o Lula. Essa maluquice de se achar o criador do Brasil, na verdade, é a tentativa de fazer um contraponto ao discurso midiático de que FHC é o verdadeiro demiurgo de todas as coisas boas que acontecem.

FHC não precisava gastar seu gogó, a mídia já o fazia (e ainda o faz) sem que sequer o tucano precisasse pedir. Lula deve ter ficado com uma certa inveja, resolvendo prescindir da mídia e falando diretamente ao povão que “nunca antes nesse país...”. Deu certo. Nunca perdoarão o barbudo por isso.

A Veja é tão doidivanas que assume até os fantasmas ridículos dos norte-americanos. O texto termina com o inspirado argumento de que em países comunistas como a Coreia do Norte e Cuba, a igualdade se dá na pobreza.

Coreia do Norte e Cuba possuem duas realidades completamente distintas. Embora, eu não seja simpatizante do sistema político cubano (não saberia viver em um lugar onde eu não pudesse falar mal do governo ou de qualquer coisa que me desagrade), é maluquice negar que os indicadores sociais da ilha de Fidel são dignos de primeiro mundo.

Talvez, eles não tenham i-pods ou carros novos, mas também não são analfabetos e sequer morrem de tuberculose ou convivem com surtos de dengue. É claro, que a Veja sabe disso, mas Veja é Veja.

segunda-feira, 5 de março de 2012

São Paulo Faz Parte do Brasil, mas Não é o Brasil




A eleição para prefeito de São Paulo tornou-se a questão política mais comentada desde que José Serra há cerca de duas semanas resolveu disputar as prévias para garantir o direito de ser o candidato do PSDB ao pleito.

A disputa municipal foi nacionalizada, pelo menos segundo grande parte da Imprensa. O PT vem tentando governar a cidade novamente desde 2004 quando Marta Suplicy foi derrotada pelo mesmo José Serra quando tentava a reeleição.

A entrada de Serra mexeu no tabuleiro político paulista. O prefeito Gilberto Kassab (PSD) já declarou que se manterá fiel a Serra, seu padrinho político. Lula negociava uma aliança com o partido liderado pelo prefeito, em uma tentativa de quebrar a resistência da fatia conservadora do eleitorado da cidade. O Fator Serra desarticulou a tentativa de Lula de seduzir o PSD.

Ao aceitar disputar a prefeitura, Serra gerou um rebuliço tão grande que foi entrevistado no Jornal da Noite da Band pelo próprio âncora, Boris Casoy, por cerca de dez minutos. Serra e Casoy trataram de nacionalizar a eleição. A questão é se a população quer discutir o governo federal, discussão feita em 2010 quando Serra foi fragorosamente derrotado, ou os problemas da cidade de São Paulo.

Lula teria como obsessão quebrar a hegemonia tucana na cidade. E para isso escolheu o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, para ser o candidato. Moderado, Haddad poderia ser mais palatável ao eleitorado da cidade, principalmente a fatia mais conservadora.

Serra, por outro lado, foi empurrado pelo partido para a prefeitura da capital. FHC, recentemente, concedeu entrevista à revista britânica The Economist (aqui) afirmando que o candidato natural dos tucanos seria Aécio Neves, além de ter feito sérias restrições ao nome de Serra.

Como o PSDB vai apostar na reeleição de Alckmin em 2014 para o governo do Estado, o único espaço para Serra seria disputar a prefeitura. Seria isso ou colocar um pijama e se aposentar. Além disso, barrar a pretensão petista de governar a cidade seria fundamental para os Tucanos.

Tenho lido opiniões em revistas e portais de que Lula quer vencer em São Paulo para reduzir a oposição ao pó em uma atitude flagrantemente antidemocrática. Lula, como todo político em regimes democráticos, é obrigado a conviver com adversários.

Conviver não que dizer deixar de disputar espaços. Lula não mandou matar nenhum político da oposição, não ameaçou ninguém de morte, nem cassou os direitos políticos dos tucanos. Ele só quer, até que se prove o contrário, vencer a eleição nas urnas. Não é normal? Qual o sentido de Lula não querer disputar espaços com um adversário político?

Serra disse em seu discurso estar disputando a eleição por conta de um chamado partidário para cumprir a missão de impedir a hegemonia petista. Li na Veja o comentário de que se Lula quis nacionalizar a disputa ao utilizar seu prestígio, o PSDB deu o troco com Serra, que iria derrotar Lula.
É preciso ter paciência com nossos analistas

Lula não é candidato, embora seu apoio seja importante. Aliás, os candidatos de Lula foram derrotados sistematicamente pelos tucanos em São Paulo. Como líder do PT é normal que Lula articule dentro do partido as opções que considera mais viáveis. Assim como FHC, na condição de líder partidário, deu um chega pra lá em Serra em prol de Aécio na entrevista à The Economist. Querem que Lula pare de fazer política? Que medo desse cabra.

Mantendo São Paulo, o PSDB vai poder contar com uma vitória em Minas, cuja votação pífia nas duas últimas eleições presidenciais foram colocadas na conta de um possível corpo mole de Aécio. O que é claro, não aconteceria caso o próprio fosse candidato.

Nas duas últimas eleições presidenciais, o PT foi derrotado em São Paulo. Derrotas que podem ter sido compensadas por vitórias em Minas. Não fiz os cálculos, são apenas impressões. Mas, se por um lado São Paulo terá um outro peso nessas eleições. Por outro, São Paulo não é o Brasil, faz parte dele. E com certeza é muito importante.

Como disse antes Lula não está disputando eleição, apenas tem o seu candidato. Querem transformar a questão paulista em questão nacional e isso tem limites. Serra discutiu o país em duas ocasiões e, foi derrotado por Lula em 2002, e por uma mulher que muita gente dizia ser um poste em 2010.

Acho que Serra é o favorito, e provavelmente deve vencer a disputa em outubro. Mas todos sabem que para as pretensões de Serra, a prefeitura seria apenas um prêmio de consolação.

sábado, 3 de março de 2012

A Dama de Ferro - A Resenha da Resenha



Meryl Streep perfeita

Todos com um pouco de senso crítico sabem como a Veja jogou sua própria credibilidade pelo ralo em tantos casos que seria até cansativo refazer uma lista nesse post. Neste blog há várias análises sobre casos recentes em que uma Revista outrora respeitada por todos os segmentos da sociedade, tornou-se um panfleto, fazendo uma coisa parecida com o jornalismo.

Expoente máximo do estilo Neocon, uma mistura de conservadorismo com muita agresividade e falta de educação, de fazer jornalismo. A revista parece fazer mal não apenas à sua própria credibilidade como também aos próprios jornalistas que trabalham por lá.

Desde a década de 50, com o estudo pioneiro de Warren Breed “O controle Social na Redação”, vários estudiosos apontam para o fato de como as regras profissionais, ambições e pressões dentro das redações e o convívio com colegas acabam criando um certo conformismo dos profissionais à linha editorial da publicação a ponto de um dos informantes de Breed revelar que a linha editorial é apreendida por “osmose”. Dificilmente um editor ou publisher fala diretamente ao repórter sobre a questão.

A crítica de cinema, Isabela Boscov parece ser um desses casos, uma profissional que parece ter sucumbido à linha editorial da Veja. Quem leu a resenha do filme A Dama de Ferro na edição 2257 da revista sabe do que estou falando. Foi há duas semanas, mas eu só pude assistir ao filme nos últimos dias. Não posso negar comecei a assistir ao filme com a resenha de Boscov na cabeça.

Quem acompanha a revista há um certo tempo e ainda não a abandonou por questões profissionais, sabe que os textos dessa jornalista eram uma das poucas coisas suportáveis na publicação.A Veja parece não confinar mais sua pregação monolítica de pensamento único apenas às páginas amarelas e reportagens sobre política e economia, mas a expandiu para as áreas comportamental e cultural.

É quando o bem simbólico ou comportamento em questão possui forte conteúdo político que o leitor mais atento percebe as pegadinhas da Revista. Concordo com Boscov sobre a atriz Meryl Streep carregar o filme nas costas com uma atuação vencedora do Oscar de Melhor Atriz. Contudo, não é a análise cinematográfica que me trouxe desconforto. Sou humilde o suficiente para saber que a autora da resenha entende infinitamente mais sobre cinema do que eu.

A questão é a maior parte do texto discutir a atuação política de Tatcher, e é onde o estilo Neocon começa a aparecer. O texto tem uma chamada afirmando que Tatcher era exatamente o que os Britânicos precisam naquele momento em que ela assumiu o leme do país.

Com que autoridade ela pode dizer isso? Ainda bem que a Veja não é lida na Inglaterra. Quem somos nós para dizer o que outros países precisam ou precisavam? O mesmo aconteceu com Alan Touraine, sociólogo francês que já trabalhou com FHC, ao dizer em 1994 que a menos que FHC vencesse as eleições daquele ano o país seria mergulhado no caos. Qual a autoridade de Touraine para fazer esse tipo de afirmação? Imaginem um intelectual brasileiro publicando um artigo desse tipo no Le Monde. Seria alvo de chacota.

O filme mostra como uma filha de dono de mercearia e liderança de uma pequena cidade conseguiu chegar com seus próprios esforços à renomada universidade de Oxford, foi eleita para uma cadeira na Câmara dos Comuns, numa época em que a casa legislativa britânica era dominada por homens, e foi alçada ao cargo de primeira-ministra, resgatando os valores conservadores, abalados pelo consenso atingido pelo Estado de Bem-Estar social.

Margaret Tatcher, junto com Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, foi uma personagem-chave da década de 1980. Para bem ou para mal (na minha opinião mais para o mal), suas ações definiram o xadrez político e econômico jogado no mundo contemporâneo.

O filme “A Dama de Ferro” tenta contar a história de Tatcher a partir de uma retrospectiva feita  através das memórias de uma já senil ex-ministra britânica. O filme tenta humanizar a famosa senhora com fama de inflexível e durona, mostrando-a num momento da vida em que está perto do fim e os fantasmas do passado resolvem visitá-la. Se o poder é solitário, a solidão de quem já não o tem é um fardo ainda mais pesado.

É uma fórmula que não é nova e foi aplicada com brilhantismo pelo diretor russo Alexandr Sokurov no filme Taurus (2003) ao retratar, misturando ficção e realidade, a solidão dos últimos dias de um Lênin demente por causa da sua doença (provavelmente sífilis, o real motivo da morte ainda é um mistério), tendo devaneios grandiloquentes entremeados com reflexões realistas sobre suas condições e sobre a própria revolução de 1917, enquanto Stalin conspirava para assegurar a transição do poder no Kremlin para as suas próprias mãos.

Tatcher chegou ao poder quando as conquistas do Estado de Bem Estar-Social passaram a bater no teto, criando a chamada “crise de legitimação”. O contrato tácito entre trabalho e capital estava gerando curto-circuitos, e em uma época em que, segundo o Ex-presidente Republicano dos EUA, Richard Nixon, éramos todos Keynesianos, a saída encontrada foi aderir às ideias de um grupo de intelectuais considerados excêntricos durante décadas.
O primeiro encontro da sociedade de Mont Saint Pélérin

Estudiosos da envergadura de Karl Popper, Walter Lippmann, Freidrich Von Hayek e Milton Friedman reuniram-se pela primeira vez na pequena estação suíça de Mont Saint Pélérin, em 1947, para criticar o autoritarismo do estado regulatório inaugurado pelos EUA com o New Deal e pelo Estado de Bem-Estar Social europeu, e claro, propor uma alternativa, o que conhecemos hoje como neoliberalismo.

Diante do vacilo e da incapacidade das lideranças políticas de proporem uma solução para a crise econômica dos anos 1970, os antes excêntricos tinham uma fórmula pronta para resolver o problema: desregular a economia, desmontar os serviços públicos, enfraquecer os sindicatos e a rede de proteção aos trabalhadores.
Fazendo política com Pinochet

Engana-se quem pensa que Reagan e Tatcher foram os corajosos políticos a implantar as amargas políticas neoliberais. O chile de Pinochet, amigo pessoal de Tatcher, foi o laboratório das ideias do pessoal de Mont Saint Pélérin com forte apoio técnico do economista Milton Friedman, posteriormente vencedor de um Nobel. O neoliberalismo era uma ideia ótima. Afinal, se alguém tinha que se sacrificar com a crise que fossem os trabalhadores assalariados, não é mesmo?

Tatcher tinha pulso firme e uma personalidade autoritária. Inflexível nas negociações, a frase que o espectador mais escuta no filme é “I will not negociate”, pronunciado por uma Streep perfeita no papel. Não negociava com terroristas (e está coberta de razão). No entanto, as negativas não eram privilégio desses criminosos, mas estendidas a quase toda a sociedade, até seus companheiros de partido.

Seu pulso firme com grevistas e o caos econômico gerado pela implantação das políticas neoliberais minaram sua popularidade. A junta militar argentina conseguiu ressuscitar sua popularidade com a invasão das Ilhas Malvinas/Falkland quando os Britânicos esmagaram um país de terceiro mundo governado por militares de um país periférico, mas com ideias grandiloquentes.

Depois de ser reeleita graças à guerra das Malvinas, viu a economia voltar a crescer da Grã-Bretanha graças aos ganhos da desregulação econômica, que começava a jogar uma quantidade de dinheiro elevada advinda da financeirização da economia.

Não é um dinheiro advindo de produtividade, mas de cunho em sua maioria especulativo, por isso mesmo muito mais sensível aos azares da ciranda econômica. Além disso, é um dinheiro mal distribuído, a desigualdade aumentou nos EUA e na Grã-Bretanha, fruto dessas políticas. Derivativos não geram empregos.

Tatcher acabou caindo não por causa da sua impopularidade, mas, de acordo com o filme, por sua arrogância no trato com os colegas de partido, sendo sucedida pelo também conservador John Major, que assumiu o barco no momento em que as políticas neoliberais começavam a enfrentar os seus primeiros desgastes com o retorno do desemprego. Tatcher, sem saber, se livrou do Abacaxi que vinha pela frente.

Depois dele, entrou o trabalhista Tony Blair, que não fez nada de muito diferente, mesmo com Anthony Giddens como ideólogo. Apesar de ter escrito dois livros sobre o tema, Giddens ainda não explicou o que é realmente a tal Terceira Via, que não é nem esquerda, nem direita, e sequer é um centro à maneira tradicional. É embromation, mesmo.

Acho curioso, uma estadista ser tão próxima de Pinochet e ninguém falar nada, apenas lembram de seu pulso firme e de sua inflexibilidade. Lula gosta de andar com o ditador cubano (sim, Fidel é um ditador), e todo mundo senta a lenha no barbudo. Cada um tem seu tirano de estimação. Como o Brasil está emergindo, Lula tratou de arrumar o seu também, oras. A Veja bem que poderia tratar do assunto na matéria sobre o filme.
Amigos para sempre

Engraçado, é como a Veja até quando vai comentar um filme promove o apagamento da história. O ator Ronald Reagan e a Dama de Ferro são figuras que estão nas raízes de acontecimentos como a crise financeira de 2008, o Ocupe Wall Street e os distúrbios em Londres. É muito difícil para alguns olhar tantos anos para trás, principalmente para a Veja.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não sou dono do partido, mas sou filho do dono


Abri o Dário de Pernambuco, na última terça-feira (28), e comecei a ler a coluna da jornalista Marisa Gibson. O principal fato na concepção da colunista seria o anúncio da candidatura de Jarbas Vasconcelos Filho, o Jarbinhas, 21 anos e estudante de administração na Unicap.

O problema não é o fato em si, apesar de apenas o DP ter dado destaque ao fato em sua versão impressa, mas o tom extremamente laudatório. A jornalista praticamente dá boas vindas ao novo candidato, simplesmente por ser filho do ex-governador.

Jarbas foi deputado estadual e federal, prefeito do Recife, Governador do Estado, e no momento é Senador. Tem uma história política rica. Mas é Jarbas, o pai, quem possui uma biografia política de peso. Alguém se cacifar a um cargo por que é fidalgo em pleno século XXI é simplesmente ridículo.

Quem conhece Jarbinhas? Ele fez o quê? Militou em alguma grande causa? Colocou-se no debate público? O Diário de Pernambuco também publicou na mesma edição uma matéria sobre a tão ansiada candidatura. Esse fato só pode ser notícia por ser filho de alguém famoso. Vejam a declaração que o rapaz deu para o Blog do Jamildo (aqui):

" Estou saindo (candidato) porque ele (Jarbas) me deu a bênção. Me sinto preparado. Meu pai nunca me obrigou a fazer nada. Sempre me deixou à vontade. Minha influência partiu da trajetória dele. Ele hoje é um político muito raro no Brasil. Um dos poucos que mantém a postura. Diz que foi eleito para fazer oposição e realmente faz. Sobretudo meu pai é um homem muito honesto"

A matéria aborda a benção de Jarbas pai às pretensões de seu rebento e do ciúme de outros candidatos por causa da candidatura do rapaz. Tal ciumeira, se vier a acontecer, é compreensível.O sujeito vive o partido, milita, concorre muitas vezes para fazer cauda para a coligação, e de repente vê evaporarem suas chances de competir realmente por uma vaga pelo fato de as atenções do partido provavelmente estarem voltadas para a eleição de um novato, filho do principal cacique do partido.

Como consolo, fica a possibilidade de Jarbinhas ser um campeão de votos, e puxar uma penca de correligionários.

Pior é ouvir declarações como as de Raul Henry, para quem Jarbinhas concorre por que tem vocação. A qual teste vocacional o garoto foi submetido?

Jarbas pode ter vencido o mito Miguel Arraes com uma diferença acachapante de votos, mas nas últimas eleições perdeu de lavada, tendo apenas cerca de 15% dos votos. Arraes foi derrotado por uma diferença menor, e caiu no ostracismo. Arraes foi três vezes governador, prefeito do Recife, foi exilado político. Enfim, uma biografia no mínimo tão rica quanto do peemedebista.

Vasconcelos é uma espécie de FHC pernambucano, liderança calcada mais no simbolismo e na lembrança de um passado glorioso do que no seu cacife atual de mudar algum cenário ou de apontar um caminho para os aliados. Suas declarações reverberam apenas entre os seus e.... na imprensa. Assim como aconteceu com Arraes depois de sua derrota para Jarbas.

Aliás, é um FHC sem grife. O tucano fez doutorado na Sorbonne, escreveu vários livros que ainda são discutidos, e é um intelectual reconhecido internacionalmente. E claro, fez um ótimo documentário sobre a descriminalização das drogas. Dizem que foi oportunsimo, mas.....

Ainda bem que os filhos de FHC e Lula não tiveram a ideia de saírem candidato escorados na biografia paterna. Ambos têm o direito de se candidatar, entretanto uma candidatura calcada em laços familiares não é a situação mais adequada.

Imaginem Lula tendo essa ideia de um republicanismo raro. “Nunca antes na história deste país, o filho de um operário, cujo o pai é presidente, sai candidato a um cargo público. Isso sim é ascensão social”. Será que a candidatura de seu rebento ia ser recebida de braços abertos? Todo mundo já sabe a resposta.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Fox Sport x Sportv por Libertadores é Briga de Cachorro Grande - Pior para você, assinante


Quer ver esse caras jogarem?

O fã de futebol sabe que o grande sonho entre os torcedores dos grandes clubes do Brasil é ver seu time vencer a Copa Libertadores da América, que dá ao torcedor o gosto de acordar cedo em dezembro pra ver seu time disputar o mundial ao lado de algum grande time do futebol europeu.

Mas torcer para o seu time no conforto do seu sofá, mesmo para quem paga uma nota por TV por assinatura, pode se tornar uma missão impossível. O motivo? Os direitos de transmissão para a TV fechada do campeonato mais importante do Continente.

A Fox, conglomerado de mídia comandado pelo australiano Rupert Murdoch, detêm os direitos de transmissão do torneio, e o repassa à Globo e ao Sportv (Canal de esporte dos Marinho na TV fechada).

Contudo, até as pedras sabem que o mercado mais apetitoso da América Latina é o Brasil. A Fox cresceu o olho e quer tirar sua casquinha. Para tal criou a Fox Sports, cujo carro chefe será a transmissão da libertadores. Por isso a Fox, de forma legítima, resolveu não repassar os direitos para a Sportv em 2012.

Para colocar o canal no ar, a Fox precisa que as operadoras o coloquem na grade. As duas principais operadoras do Brasil são Net e Sky, as duas juntas possuem uma fatia de 70% do mercado nacional? Adivinha quem está entre os grandes acionistas dessas operadoras? A Globo, que talvez por obra do acaso, controla a Sportv.

O canal ainda não entrou no ar e o imbróglio tomou ares absurdos com a Sky censurando a propaganda da Fox Sports no canal Speed, também de propriedade da Fox e dedicado aos amantes de automobilismo. Aliás, a Fox tem transmitido a libertadores pelo Speed.

Perder os direitos de um serviço para um concorrente capitalista faz parte do jogo? Claro, mas não no Brasil, onde sequer o valor da concorrência foi realmente absorvido pela nossa burguesia. Todo mundo quer ser o senhor de seu próprio engenho. Nem mesmo, esse tipo de jogo competitivo restrito a alta burguesia, e do qual o povo fica de fora, pode ser jogado em território nacional. Não para nossa burguesia estamental.

A Fox tem sua parcela de culpa. Agiu de forma amadora. Devia ter começado a montar a estrutura de transmissão anteriormente e ter aberto os canais de negociação há alguns meses. Mas talvez, a Fox temesse o grande poder político da concorrente, e tenha tentado de forma errônea entrar de supetão.

Por sua vez, a Fox pede através de seus outros canais para que o assinante exija de sua operadora que coloque o canal no ar (aqui). É difícil acreditar que o conglomerado do controverso Murdoch (que não é nenhum santo) precise que o consumidor apele para as operadoras, embora este tenha o direito e o dever de fazê-lo, caso queira assistir ao torneio. Mas fica clara a estratégia de pressão da Fox nesse caso.

Como a Fox demorou para colocar o canal no ar, e abriu recentemente as negociações com as operadoras, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável por impedir a formação de monopólios, cartéis e trustes, não pode punir ninguém ainda, e os torcedores ficam de mãos atadas (aqui). Caso a pendenga continue e o Cade perceba que houve má intenção, pode ser que haja alguma punição, mas talvez quando isso acontecer já esteja sendo transmitido o Mundial Interclubes.


Está claro a formação de truste nesse caso. Para quem não sabe o que é truste vamos recorrer à Wikipédia. “Truste é o resultado típico do capitalismo que forma um oligopólio na qual leva a fusão e incorporação de empresas envolvidas de um mesmo setor de atividades a abrirem mão de sua independência legal para constituir uma única organização, com o intuito de dominar determinada oferta de produtos e/ou serviços. Pode-se definir truste também como uma organização empresarial de grande poder de pressão no mercado”. (aqui)

O consumidor, claro, é o grande lesado nessa disputa comercial. Vejam o que diz o Código do Consumidor.

Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:

II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;

VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;

A lei 116/10, sancionada no último dia 12 propõe uma nova regulamentação para a TV por assinatura, e veta a participação acionária de mais de 10% de empresas de radiodifusão nas empresas operadoras, separando dessa forma o conteúdo da distribuição. As empresas que estão em desacordo com a nova legislação tem até setembro de 2012 para se adequarem. Uma tentativa de proteger o consumidor de casos como este.