domingo, 18 de maio de 2008

A Amazônia é Brasileira?


Essa pergunta ridícula foi colocada pelo correspondente do influente Jornal “The New York Times” no Brasil, Alexei Barrionuevo, neste domingo (18/05). O artigo de título “Whose Rain Florest is This, Anyway?”, cuja tradução é “De quem é esta Floresta Tropical, afinal?”, denuncia que o Brasil estaria criando barreiras para a entrada de ONG’s e cientistas estrangeiros para esconder a incapacidade governamental de tomar conta desse patrimônio da humanidade. A demissão da Ministra Marina Silva agendou a questão dos problemas ambientais, dando um gancho para matéria, principalmente depois das fortes críticas, todas corretas, de Marina à política ambiental do governo. O Brasil, de acordo com o correspondente estrangeiro, estaria se comportando de forma histérica contra estrangeiros que, dentro da visão paranóica, querem usurpar parte considerável do território nacional. É preciso ser contra a xenofobia e o estúpido anti-americanismo. Além do que, é verdade que o patriotismo é realmente “o refúgio dos canalhas”, mas vamos com calma.

O repórter estrangeiro argumenta que diante das demandas relativas à biodiversidade e ao aquecimento global, o desmatamento da Amazônia se transformou em uma questão mundial, e não meramente local. Até esse ponto é possível concordar com autor do texto. Mas será que isso seria uma causa justa para o Brasil perder a soberania da Amazônia. A emissão de gases estadunidenses é a maior do mundo. Por que não convocar observadores internacionais, cientistas, ambientalistas, e etc. para diminuir a emissão de gases na terra do Tio Sam? Eles poderiam escolher a política ambiental a ser seguida e tomar uma série de medidas passando por cima do governo norte-americano, por que não?

O jornalista também acusa o Brasil de em nome do desenvolvimento estar desmatando a floresta e colocando em risco a biodiversidade da área. Também concordo. Mas em nome dos empregos do povo americano, George W. Bush se negou peremptoriamente a assinar o protocolo de Kyoto, cujo objetivo era diminuir a emissão de gases nos EUA. Sem falar que os EUA e outros países europeus desenvolveram-se industrialmente sem obedecer à leis ambientais rígidas. Exemplo que o Brasil não deve seguir, mas nem por isso acredito que outras nações possam ser mais competentes que nós mesmos para gerir parte do nosso território. A experiência recente, exemplificada no protocolo de Kyoto, mostra que não.

Saindo da pena de um jornalista que trabalha para um dos jornais mais prestigiados do mundo, a pergunta parece desprovida de qualquer interesse. Mas, é um olhar americano sobre uma questão brasileira, mesmo sabendo que ela repercute no mundo inteiro. No final do texto, o jornalista Alexei Barrionuevo recorre a uma metáfora tipicamente americana usada nos tempos do auge da Guerra Fria e da paranóia comandada pelo senador MacCarthy: comparando o tipo de controle da Amazônia que os brasileiros querem exercer à tirania exercida pelo estado soviético dentro de seu território. “Todos que discordam de nossas idéias são comunistas”. O Brasil tem, sim, que ouvir parceiros na proteção da Floresta Amazônica, mas não de forma subserviente. Pois, a Amazônia é, sim, brasileira.

República Feudal


A revista Veja publicou matéria na última edição sobre a ligação entre o loteamento de cargos no Ministério do Trabalho e os desvios de dinheiro investigados pela Operação Santa Tereza da Polícia Federal (PF), que podem implicar o deputado federal conhecido como Paulinho da Força (PDT/SP) (foto). A publicação semanal aponta que o PDT que comanda o ministério de porteira fechada, ou seja, tem a seu dispor todos os cargos. O ministérios sob o domínio de Paulinho possui uma relação simbiôntica com a Força Sindical, para quem a pasta libera recursos através do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). De início dá para perceber que há um choque de interesses.


Comandado pelo pedetista Carlos Lupi, o Ministério do Trabalho emprega pessoas que prestam serviços de consultoria à Força Sindical, como Luís Fernando Emediato. Baseada em e-mails e telefonemas cujos sigilos foram quebrados por ordem judicial, a revista mostra um flagrante choque de interesses na atuação de Emediato. Além disso, pistas dão conta de que o deputado Paulinho era beneficiário de um esquema de desvio de dinheiro, envolvendo liberação de recursos para ONG’S ligadas à Força.


Isso acontece devido ao sistema político-partidário arcaico do país. Tendo que conviver com um número absurdo de partidos, o governo, seja qual for sua coloração ideológica, é obrigado a negociar com um contingente enorme de parceiros, diminuindo a governabilidade do país. Alguns desses parceiros não possuem nenhuma afinidade programática com o governo da ocasião. Sem projetos em comum com grande parte dos partidos com quem divide as responsabilidades pelo país, o governo parte para o fisiologismo, loteando ministérios e empresa estatais entre os partidos “aliados”.


Essa loucura faz com que o país viva um sistema de governo que poderia ser chamado de “República Feudal”, onde cada membro da corte recebe seu quinhão de poder e faz o quer dentro de seu território. Cada senhor feudal, trabalhando nessa lógica, retira o que considera ser seu de direito para financiar suas campanhas políticas e permanecer no poder. Uma reforma política se faz urgente, e seria o primeiro passo para coibir essas práticas, dotando o país de um mínimo de racionalidade institucional.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Demissão Inoportuna


O pedido súbito de demissão da Ministra Marina Silva (foto), na última terça-feira (13/05), aborreceu o presidente, de acordo com o noticiário político. A demissão da ministra criou um problema, pelo menos a curto prazo: colocou a política ambiental na agenda jornalística sob um enfoque negativo. Num momento em que essa questão ganha relevância no mundo inteiro. Além disso, existe o impasse da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, que está ligado à temática ambiental.



A ministra reclamou, em sua carta de demissão, que muitas vezes seu ministério perdia disputas contra outras pastas como a de Planejamento e Casa Civil, que ganhavam a queda de braço no momento da liberação de licenças ambientais para obras do PAC. A relutância da ministra em liberar licenças ambientais lhe valeu um puxão de orelhas presidencial. Lula reclamou que a ministra estava atrasando a construção de hidrelétricas no Rio Madeira, afluente do Amazonas para proteger peixes.



O principal efeito da demissão súbita é que o governo ficou exposto sem conseguir dar uma resposta rápida às críticas da ministra, que repercutiram em todos os meios de comunicação. Lula certamente gostaria que Marina Silva não pedisse demissão, uma vez que apesar dos conflitos com outras pastas ministeriais, o nome da ex-ministra possui considerável peso político amealhado em anos de militância ambiental e política, ao lado de nomes como o do seringueiro Chico Mendes. Mas, se Marina quisesse mesmo abandonar o barco, talvez o presidente preferisse uma demissão negociada com o governo e a ministra afinando o discurso. Ex-seringueira, a Marina possui uma trajetória política e uma história de vida belíssimas que por si já rendem votos.



O governo reagiu rápido e anunciou já nesta quarta (14/05) o nome do novo ministro. A pasta será ocupada pelo atua secretário de Meio Ambiente do estado do Rio de Janeiro Carlos Minc. O anúncio relâmpago é uma tentativa inteligente de tirar o foco das críticas de Marina para as notícias sobre o novo ministro. O governo petista, extremamente incompetente quando o assunto é gerenciamento de crises, dessa vez agiu rápido. Marina Silva vai ocupar sua vaga no senado, posto para o qual foi reeleita em 2002, no lugar do suplente Sibá Machado.

sábado, 10 de maio de 2008

Blindando Dilma


Depois da infeliz atuação da oposição durante o depoimento da ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, entregando de mãos beijadas uma vitória política ao governo, eis que surge um fato novo. Finalmente, as investigações feitas pela Polícia Federal e por sindicância interna do próprio Ministério da Casa Civil apontaram o responsável pelo vazamento do dossiê: José Aparecido Pires Nunes, funcionário do Ministério indicado por José Dirceu (foto), quando ele ainda era o todo poderoso do governo petista. Outro dado interessante, o e-mail que deu início ao vazamento foi enviado por Aparecido a um assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que é da oposição. Quem acha que essa notícia prejudica o governo está redondamente enganado.


Quem assistiu ao Jornal da Globo na última sexta-feira (09/05) teve o desprazer de presenciar o comentário de um senhor que como analista político é um ótimo cineasta. Destilando toda a sua ignorância política, esse cineasta, que inclusive é autor de filmes famosos, comentou que o fantasma de José Dirceu, mentor de Aparecido, ronda o planalto depois de Dilma conseguir uma importante vitória diante da oposição.


Ou seja, para esse grande cineasta, Dirceu, sempre aplicando táticas maquiavélico-leninistas de aparelhamento do Estado e tomada do poder, estragou tudo e colocou o governo em maus lençóis novamente. Na verdade, a tese mais consistente seria a de que Dirceu está fazendo, conscientemente ou não, o papel de bode expiatório nesse caso do dossiê, o que não deixa de seguir a “Cartilha José Dirceu” de manutenção do poder. Para o governo é mais cômodo jogar o problema no colo do antigo todo-poderoso petista, apesar de ele poder estar envolvido no vazamento.


Concordo com o cineasta quanto ás táticas maquiavélico-leninistas para chegar ao poder usadas por Dirceu, mas não com a estratégia apontada em sua análise. Dirceu tem grande poder dentro do PT, mas eleitoralmente não tem força, até por ter perdido seus direitos políticos. Ninguém pode mais caçar o “ex primeiro-ministro” de Lula, por isso nenhum integrante do PT estaria mais apto a trabalhar pelo vazamento do dossiê e depois levar a culpa. Além disso, a entrada de Dirceu na história tira o peso das costas da atual ministra Dilma, mantendo a mesma fortalecida e no páreo para 2010. E Dirceu já deu provas que se sacrifica pelo projeto de poder petista, vide a sua cassação em 2005. O PT e o governo estão, na verdade, blindando Dilma.


O PT tem ainda a opção de queimar Aparecido sem ferir José Dirceu, já que a as planilhas com os gastos da presidência durante o governo FHC foram enviadas a um assessor de um senador da oposição. O governo pode atirar Aparecido na cova dos leões, acusando-o de fogo amigo, e colocar a culpa na oposição, já que foi um senador tucano recebeu as planilhas.


Contudo, essa é uma hipótese remota e que serviria apenas para desviar a atenção do público, pois parece mesmo é que a idéia era fazer chegar o dossiê à oposição para intimidá-la, uma tática com a cara do setor maquiavélico-leninista do PT. É bom lembrar que a própria Casa Civil mandou esse computador para ser periciado, uma vez que ele não estava na lista dos investigados pela PF. Além disso, não podemos perder de vista que a notícia da descoberta do responsável pelo vazamento foi divulgada coincidentemente um dia após a repercussão positiva do depoimento de Rousseff no Senado, fortalecendo-a ainda mais. Se Dirceu estiver envolvido na “lambança” do dossiê, dessa vez pode ser que no fim acabe dando certo.


A moral da história é que alguns meios de comunicação têm apostado em polemistas de verniz conservador para fazer comentários como Diogo Mainardi e Arnaldo Jabour. O problema, na verdade, não é a orientação política dos comentaristas, mas a vontade de polemizar desses indivíduos, que, muitas vezes, ultrapassa uma visão equilibrada e, mesmo ética, da informação. São pessoas que acrescentam muito pouco ao conhecimento do público sobre os fatos, e parecem pensar que dominar a retórica e a estilística lingüística é o suficiente para prestar um serviço decente a leitores e espectadores.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O esperado depoimento de Dilma


A oposição bateu o pé e conseguiu: Dilma Rousseff, Ministra da Casa Civil depôs no senado sobre o dossiê dos gastos da presidência feitos durante o governo FHC. Apesar de o discurso não ter sido feito no espaço da CPI, mas na comissão de infra-estrutura; e de o assunto que serviu como justificativa ter sido as obras do PAC, e não o dossiê, a sabatina estava cercada de expectativas. O depoimento foi marcado por um bombardeio oposicionista, que tinha como objetivo expor aquela que muitos julgam ser a favorita de Lula na sucessão presidencial.


Contudo, essa exposição pode favorecer Dilma, principalmente quando o senador Agripino Maia (DEM – RN) (foto) faz as perguntas. Numa declaração infeliz, o parlamentar alegou que a ministra poderia mentir para a comissão, uma vez que em entrevista a jornalistas Rousseff confessou ter mentido sob tortura. Quem não mentiria apanhando e tomando choque elétrico? Bom lembrar que o senador Maia fazia parte das forças políticas que davam sustentação ao governo militar, dotando a declaração de uma impropriedade ainda maior. Ponto para Dilma. Outro fator a ser destacado foi a calma que a ministra demonstrou durante a maior parte do tempo em que estava sendo inquirida. Dilma alegou que a casa-civil estava montando o dossiê, banco de dados para o governo, a pedido do TCU para responder a dois pedidos de informação feitos pelo senador Arthur Virgílio (PSDB - AM).


Essa crise foi criada pela ingenuidade governista que arruma corda para se enforcar, ao fazer um dossiê para se defender de uma CPI que já nasceu acabando, mas a oposição parece ser ainda mais incompetente. Os oposicionistas pretendem convocar Dilma novamente. Um erro crasso. O mais inteligente é esperar a Polícia Federal terminar a investigação sobre a montagem do dossiê, torcendo para que a apuração policial traga um fato novo, pois a tendência é que as perguntas se repitam, e a imprensa se canse de cobrir convocações à ministra, já que não existirão fatos novos, dando cada vez menos espaço à oposição no noticiário.


Ao que tudo indica Dilma parecia ser mais uma distração para a oposição que uma alternativa para 2010, mas quem sabe depois da propaganda positiva, a oposição não tenha tornado a ministra uma alternativa real. Principalmente depois de Dilma ter respondido à altura ao senador Agripino Maia dizendo que dessa vez ela não precisaria mentir já que ela e o senador estavam em igualdades de condições e não em um regime autoritário que usa a coerção como principal meio para garantir sua legitimidade.

sábado, 3 de maio de 2008

A Força da Pré-Campanha no Noticiário

Na falta de um fato político “jornalisticamente” relevante, os jornais locais voltam suas munições para a (pré) campanha municipal. A CPI dos cartões parece não produzir mais fatos e discursos conflituosos que pudessem encampar uma cobertura mais ostensiva, e a tese do terceiro mandato parou de render, simplesmente pelo de que para o tema continuar em pauta é preciso contar com a boa vontade de governistas dispostos a defender mais uma reeleição para o atual presidente. Resta a pré-campanha.


É um tema recheado de conflitos, declarações inflamadas que se transformam em fatos, transgressões às leis eleitorais, e é um tema que não demora tanto para que os envolvidos ofereçam uma resposta pública como no caso de votações parlamentares que envolvem discussões de idéias e interesses, característica própria de regimes democráticos.


A pré-campanha uma vez que gira em torno do jornalismo declaratório é de fácil cobertura: é só repercutir o que o um pré-candidato ou figura política declarou entre aliados e adversários. Não é preciso muita investigação, pesquisa, ou ainda conhecimentos específicos sobre determinado assunto. Apenas é necessário conhecer os bastidores do jogo político.


Muitas vezes, os jornalistas apenas dão vazão a discursos preocupados com a ascensão política pessoal e esquecem que os sujeitos envolvidos postulam cargos eletivos. Uma visão schumpteriana da política, em que as decisões seriam tomadas pelas elites, sendo as eleições apenas um momento de legitimar o regime através do voto popular.


Os três jornais começaram a intensificar esse tipo de cobertura; agora só um desastre na política nacional pode parar por algum tempo as notícias dessa categoria. A boa notícia é que pelo menos os jornais estão noticiando os abusos em relação à propaganda fora de época do período pré-eleitoral. O grande problema não é a cobertura da pré-campanha, mas o esquecimento de toda uma série de acontecimentos ligados à política que a população deixa de conhecer por conta da ênfase dada a essa categoria de fatos na cobertura.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Núcleo de Estudos

Uma boa notícia para quem pesquisa sobre jornalismo surgiu nesta semana. O nascimento do Núcleo de Jornalismo e Contemporaneidade ligado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFPE, e liderado pelos Professores Alfredo Vizeu e José Afonso Jr, contando com a participação de mestrandos e doutorandos. Acesse o site do núcleo aqui. O primeiro evento do núcleo será um seminário no próximo dia 28 de maio com a presença de pesquisadores renomados do Nordeste. Para informações sobre o seminário clique neste link.