domingo, 9 de julho de 2017

O Lulismo é uma ideologia TINA

O lulismo, caso saia vencedor em 2018, vai nos levar a outro beco sem saída. Sabe por que? O lulismo é uma ideologia TINA - There is no Alternative (Não há alternativa) - de sinal trocado. Nem tão trocado assim, na verdade, uma vez que o Lulismo é um fenômeno dúbio.

O termo ideologia TINA foi criado pelo Perry Anderson para explicar o aprisionamento do eleitorado inglês às políticas da Thatcher. No fim, Thatcher e seus apoiadores saiam com a frase “Não há alternativa” para a retirada de direitos. FHC usou um argumento parecido. Temer usa algo nesse sentido para emplacar as reformas da previdência e trabalhista.

Voltando à 2002… Alguém lembra do slogan petista “a esperança vence o medo”? Recordo que na época daquela eleição, eu cursei a disciplina de Ciência Política na graduação. Foi uma das melhores disciplinas de toda a graduação, uma das únicas em que eu lia todos os textos com gosto (Os Clássicos da Política 1 e 2, do Francisco Welffort (Org); e Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, do A. Gramsci).

Lembro que o texto explicativo sobre o Hobbes, no Clássicos da Política, era do Renato Janine Ribeiro: “Medo e Esperança em Hobbes”. O grande mote do Janine era que dentro do pensamento Hobbesiano “O medo vence a esperança”.

Ou seja, diante do estado natural, os súditos aceitam o Estado absoluto com medo de que outro indivíduo mais forte os subjuguem. Todos chegam a conclusão que é melhor entregar seus direitos, então, ao poderoso Leviatã.

O PT, em 2002, apresentava um slogan contrário ao mote hobbesiano. Era, mais ou menos, como se o Lula e o PT estivessem dizendo: “vamos acreditar, podemos ser diferentes”. Em consonância com o sentimento de mudança daquela eleição.

O que temos hoje é que o Lulismo tornou-se uma ideologia TINA para a esquerda. O lulismo sempre tem algum tipo de slogan ou mensagem que explora justamente o medo da outra alternativa “muito pior”.

Grande parte da esquerda fica eternamente presa às alternativas postas pelo Lulismo e não consegue superar o “medo”. Se cedemos ao medo, e largamos qualquer esperança, qual a necessidade de existir uma esquerda? A esquerda existe apenas para ganhar eleições? A que custo?

Hoje, o Lulismo é mais do mesmo. Quando o Lula disse em entrevista durante essa semana que não iria revogar reformas feitas pelo Temer, caso eleito, e quando mostrou disposição em relativizar as acusações do Janot contra o Temer, vimos onde ele quer chegar.

O acordão está saindo do forno, e está quentinho para 2018. Se Lula vai ser candidato, se Temer vai cair, e quem vai assumir são outras questões que dentro desse cenário caótico ficam muito difíceis de prever. Então, a esquerda vai ficar deixar o medo vencer ou construir outras alternativas fora do Lulismo?

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Invadiram nossa Praia: o Fascismo onde menos esperamos




Não sei por qual motivo ao dar minha zapeada habitual pelo facebook após o café da manhã cliquei na notícia “'Galera da balada' afasta clientes em Maresias, dizem comerciantes” publicada nesta terça-feira (13) na versão digital da Folha de São Paulo (aqui). Talvez porque eu quisesse saber que galera da balada era aquela, e quem eram os clientes afastados, qual foi a ordem do prejuízo causado pela mudança do público, enfim só lembro que cliquei.

Vocês conhecem aquele conselho “nunca leia os comentários das notícias na internet”? Eu não consigo segui-lo. Ler os comentários para mim é um dever profissional, pois muitas vezes são parte da notícia. Em seguida ao impulso de ler a matéria, tive o impulso de dar uma olhadela nos comentários.

É interessante verificar como os leitores/comentaristas interagem com o noticiário. E como na Folha de São Paulo apenas assinantes podem comentar, é possível ter uma ideia do público mais assíduo da publicação. Curioso também como, mesmo nas entrelinhas das notícias, podemos verificar determinados posicionamentos do autor e das fontes no uso de aspas e outros recursos.

O comentarista de internet é um ser curioso: despeja todos os tipos de preconceitos possíveis. Nos comentários de internet há uma naturalização do fascismo, talvez uma interiorização de alguns valores fascistas.

Isso torna possível o repúdio à possibilidade de governos fascistas, ao criticarem Hitler e Mussolini nos cometários, a partir de ideias fascistas, como preconceito de classe, gênero e cor. Ou seja, o fascismo pode estar onde a gente menos espera, dentro de nossos familiares (reunião familiar pode ser um pesadelo) ou em comentários na internet.

A sabedoria popular sempre tratou a praia como um local democrático. Morei em duas capitais muito diferente culturalmente: Rio de Janeiro e Recife. Hoje resido em Aracaju. Em todos esses locais, a praia é vista como um local democrático. Embora, eu considere a praia democrática até a segunda página.

No Recife, ir à praia saindo da periferia pode ser uma viagem infernal. De tal modo que é possível alguém de carro sair do Recife até Porto de Galinha e dispender menos tempo do que alguém que sai da periferia da capital pernambucana e vai até Boa Viagem de ônibus. O mesmo vale para o Rio de Janeiro e Aracaju, que possui o pior sistema de Transporte Público já visto por mim.

Ao chegar na praia, há a convivência entre todas as classes, mas eivadas de desconfianças e mesmo de certos espaços e denominações como os “farofeiros” ou “suburbanos” que criam uma fronteira simbólica entre nós e eles. Ou seja, há, na realidade, uma convivência forçada.

Dessa forma, mesmo pessoas que vivem próximas à praia nessas capitais possuem casas no litoral de seus estados ou mesmo estados vizinhos. Mas quando, como ocorre em São Paulo, eles descem a Serra e passam a ocupar essas “Praias Oásis”, praticamente purificadas?

Salve o anonimato da internet que permite às pessoas tornarem públicos aqueles pensamentos que só são partilhados entre seus pares. A matéria mostra a queda nos rendimentos com que alguns comerciantes da praia de Maresias no litoral paulista estão tendo que conviver por causa da chamada “galera da balada”.

Ora, essa “galera da balada” só pode ser uma galera de classe média que não apresenta o mesmo padrão de gastos de um público mais velho. Acordam tarde, comem qualquer besteira, levam sua própria bebida para praia no intuito de poderem gastar nas farras noturnas. Afinal, Maresias deve ser um local caro mesmo para jovens de Classe Média. Essas baladas em São Paulo não são, de forma alguma, baratas.

Há algo não dito na reportagem. Nenhuma das fontes cita essa jovem “galera das baladas”. Podem ser encontrados termos como a fuga do “público de qualidade”, “caiu um pouquinho o nível”, “a galera que costuma vir aqui está no sul ou na Bahia”, creditadas a fontes ligadas a estabelecimentos comerciais locais.

E por fim, “Há três anos passei o Réveillon aqui e já estava ruim. Agora caiu ainda mais”, dita por uma turista (veranista, no Nordeste). Eu desconfiei que havia algo não citado na matéria. Desconfiei que a repórter pode ter ido a campo com uma interpretação, uma pauta definida, e as fontes podem ter tido um enquadramento da situação diverso daquela previamente escolhida.

Ora, por que um bando de jovens de classe média ávidos por baladas caras faria com que o “público de qualidade” fugisse de Maresias. Esse público pode não comer nos melhores restaurantes da cidade, mas devem deixar os tubos em bebidas e ingressos na noite de Maresias, não?

Por fim, dei uma olhada nos comentários e consegui um enquadramento alternativo construído pelos próprios comentaristas. A “Favela” encontrou o caminho do oásis, e trouxe sua contumaz falta de educação ao reduto litorâneo da classe média tradicional. Vejam alguns comentários printados abaixo. 




Minha hipótese: havia algo de errado na pauta da jornalista. O erro pode não ter sido a causa de um determinado ramo empresarial das praias ter declinado, a avaliação da jornalista pode até estar correta, a “galera jovem da balada” pode ter mudado o público que vai à Maresias.

Mas não é esse público, na visão das fontes, que causou essa mudança. Ela provavelmente não esperava que as fontes dessem um enquadramento diferente. Os comentários podem ser a prova desse erro, pois os comentaristas parecem se identificar com as fontes. Senti falta da fala dos empresários do ramo das baladas. Esse setor obteve ganhos? O que eles pensam da mudança de público?

Talvez a repórter estivesse escondendo o preconceito e o fascismo ocultos. Os comentaristas da Folha de São Paulo costumam esbravejar com fúria incontida a qualquer enquadramento que possa divergir do seu “Fascist Way of Life”.

HILDEGARD ANGEL E A LIMITAÇÃO DO DIREITO DE IR E VIR

Quando eu estava pronto para publicar esse texto no blog, dou de cara com isso (aqui). Um texto de Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel cujo filho Stuart Angel Jones, irmão de Hildegard, foi morto pelas forças da ditadura militar. As soluções pedidas por ela para conter a criminalidade e arrastões nas praias são uma prova do nosso fascismo cotidiano.

A autora do texto pede medidas reconhecidas por ela mesma como discriminatórias como a diminuição de transporte público nos fins de semana para a Zona Sul do Rio de Janeiro, e, caso não funcione, Hildegard propõe a cobrança de ingressos para a entrada na praia. A militância da autora a favor dos desaparecidos é conhecida. Como pontuei anteriormente, o fascismo está espreitando onde menos esperamos.

Os comentários em textos de internet são, mais do que estamos dispostos a acreditar, um retrato triste da expansão do pensamento preconceituoso e fascista com que convivemos diariamente. São também um aviso, um alerta.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu sou Charlie Hebdo?

A torrente de informações e comentários sobre o atentado ao jornal humorístico francês, Charlie Hebdo, gerou um sem número de interpretações e parece ter borrado o entendimento do que é certo e errado. Um bom exemplo é a guerra entre motes que visam fornecer interpretações sobre o atentado e suas implicações políticas e éticas.




A comoção gerada pela execução de jornalistas da publicação satírica francesa Charlie Hebdo por fundamentalistas islâmicos deu origem ao mote “Je suis Charlie Hebdo” (Eu sou Charlie Hebdo). Em seguida, um outro grupo lançou o contramote “Je ne suis pas Charlie Hebdo” (Eu não sou Charlie Hebdo), lembrando que as charges publicadas pelo jornal humorístico de extrema-esquerda eram extremamente ofensivas não apenas aos muçulmanos, mas também aos cristãos e outros grupos.

Charge satirizando o papa

Além disso, as charges, apesar do intuito autodeclarado dos autores de ridicularizar o fundamentalismo do islã, acabavam por reforçar a incipiente islamofobia na sociedade francesa. Os muçulmanos, de fato, são um grupo já bastante marginalizado na França, e as charges de gosto duvidoso são bastante ofensivas, e reforçam esteriótipos.

Charge ironizando a troca de cidadania de Gerard Depardieu motivada pelos impostos sobre grandes fortunas


Entretanto, o “Eu sou Charlie Hebdo” não pode ser entendido como uma aprovação ao conteúdo ou forma das charges, mas ao fato de que ser morto por desenhar uma charge é barbárie. Mas alguém pode começar uma discussão acerca do fato de que em alguns países os desenhos não seriam publicados ou seriam passíveis de processos judiciais pela parte ofendida?

Charge em repúdio à extrema-direita francesa

Ou seja, a liberdade de expressão tem um limite, inclusive na França onde o antissemitismo é crime ou, no Brasil, onde expressões racistas são criminalizadas. Concordo. Entendo também que os ofendidos poderiam ter feito uma passeata ou um ato de repúdio às charges, até mesmo procurado as vias legais.



E esse é um ponto interessante. No Brasil, muitos do que estão defendendo ardorosamente a liberdade de expressão encaram críticas desse tipo às suas opiniões, manifestações e atos de repúdio, como um ataque à sua liberdade de expressão, ou ainda como mimi de uma minoria. Quando, na verdade, essas são também manifestações da liberdade de expressão.




Parece claro, que o “Eu sou Charlie Hebdo” vem sendo mobilizado por diferentes agentes, muitos com intenções espúrias. A participação dos líderes europeus de uma passeata ocorrida em Paris, no último domingo (11) é uma delas. Muitos desses “líderes” estão ligados a massacres e violações de liberdades a outros povos, principalmente no Oriente Médio, ou em seu próprio território, no caso dos líderes turco e russo.

O “Eu sou Charlie Hebdo” virou algo tão banal a ponto de a jornalista Rachel Sheherazade comparar o Charlie Hebdo à revista Veja e à própria jornalista, que se considera perseguida. Sinceramente, se tal publicação fosse editada no Brasil, seria duramente perseguida por ambos, a revista e a jornalista.


VAMOS BEATIFICAR CHARLIE?
O contramote “Eu não sou Charlie Hebdo” teria seu valor se os jornalistas da publicação satírica estivessem vivos. Perde sentido depois desse ato absurdo. Ainda que não tenha sido esse o sentido dos que entoam o contramote, essa frase pode soar como uma justificativa para a barbárie.




Vamos transformar os jornalistas do Charlie Hebdo em santos após morrerem? É proibido criticá-los? Não, as charges são de um mau gosto terrível. São primárias e muito pouco inteligentes. Ofensivas até para quem não professa qualquer fé. O tema vale uma discussão ética*.

Os jornalistas da publicação eram movidos por uma ética da convicção. Acreditavam no direito à liberdade de expressão a tal ponto que se sentiam autorizados a publicar qualquer coisa em nome desse direito. E estão autorizados. Ninguém pode previamente proibir alguém de publicar algo.



No entanto, todo direito tem sua contraparte, o dever. Aí entra a ética da responsabilidade. Os jornalistas do Charlie Hebdo foram irresponsáveis. Não porque devessem temer por suas vidas depois de terem feito seus desenhos, mas porque ultrapassaram a linha do humor crítico. Fizeram muitas charges que não levavam a pensar, apenas ofendiam.

Essa foi a irresponsabilidade dos jornalistas. Uma irresponsabilidade que deveria ser combatida através da disputa discursiva, e não com metralhadoras AK-47.

Por outro lado, os jihadistas que atacaram a redação do Charlie Hebdo estavam também profundamente convictos do que estavam fazendo. Uma convicção estúpida, mas no fim das contas uma convicção: a de que poderiam matar em nome de Alá.

Por isso “Je suis Charlie Hebdo”, pois diante desse momento sombrio é o que há de mais digno a se fazer. Charlie Hebdo nunca impediu que aqueles ofendidos por seus traços se defendessem das ofensas causadas por sua convicção. O mesmo não pode ser dito de seus algozes.


A QUEM INTERESSA O ATENTADO?
Afinal, a qual organização islâmica fundamentalista serviam os assassinos? O que realmente queriam como esse assassinato? Não importa a qual organização fundamentalista estavam ligados os criminosos, mas o real motivo do crime: aumentar a islamofobia dentro da sociedade francesa. E por que islâmicos estariam interessados em aumentar a opressão contra outros islâmicos?

A tática parece clara. Criar um caldo de revolta entre islâmicos franceses que se veem às voltas com um fortalecimento de partidos de extrema-direita. Com o recrudescimento de políticas desfavoráveis aos muçulmanos, os fundamentalistas esperam mais apoios entre os islamistas europeus. E após os primeiros dias de comoção, essas medidas começam a surgir (aqui)

Ou seja, um fascismo (o islâmico) dando a mão ao outro (o ocidental). Tudo que um totalitário deseja é outro totalitário de sinal trocado no poder.


*Essa análise envolvendo as éticas da responsabilidade e da convicção de Max Weber é inspirada na análise que meu colega de graduação, Edson Alves, realizou em seu TCC acerca da publicação de charges satíricas de Maomé pelo jornal dinamarquês Jyllands Post em 2005 e de toda polêmica gerada em torno do assunto.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A Aliança entre PT e Armando Monteiro: Como e por quê.

O PT, o que aconteceu com o partido? Muita gente apegada àquele Partido dos Trabalhadores das décadas de 80 e 90, ou simplesmente simpatizante de seus antigos ideais, questiona o que aconteceu com a legenda depois de 2002.

Essa pergunta dever ter voltado à tona, talvez sem tanta surpresa, e sim talvez em um tom de pergunta retórica quando o partido anunciou na semana passada que abdicaria do projeto de ter um candidato próprio em prol da candidatura do Senador Armando Monteiro Neto (PDT).

Negociações e composições é parte do fazer político, mas espera-se um mínimo de coerência. O PT tinha resistência ao PSB de Arraes ou ao PDT de Brizola por sua herança populista. Seria comum estranhar essa união com um usineiro. Mas agora não é.

O PT foi realmente uma novidade política quando foi criado, pois fora o primeiro partido a surgir fora do sistema político, com fortes ligações com um conjunto de novos movimentos surgidos no bojo da redemocratização do país.

De acordo com André Singer, o PT teria duas almas, a Alma do Sion, que remonta aos primeiros tempos da agremiação, e a Alma do Anhanguera, que retrata o comportamento pós-2002. Essa comparação entre almas ou ethos pode ser resumida em uma palavra: burocratização.

A partir de 2002, o PT passou a funcionar em torno da conquista de espaços políticos. Mas esse processo não começa aí, foi na verdade o ápice de uma contínua burocratização da máquina em busca de objetivos, o que leva a uma centralização do poder em torno de uma elite partidária.

O partido vai deixando paulatinamente de ser uma agremiação de massas, dividido em tendências, para tornar-se um partido de personalidades. Não é mais tão estranho que as contendas dentro do PT não sejam mais expressas por disputas entre tendências dentro da sigla, mas entre líderes.

 Não que as tendências tenham perdido de todo a importância, mas as disputas passam a ser expressas entre pessoas. Alguém pode evocar que essa percepção seria fruto da cobertura midiática que a personalizar os processos sociais e políticos, mas mesmo a imprensa tendia a explicar as discussões do partido sob o prisma das tendências em conflito.

Em Pernambuco, principalmente, após as vitórias do PT na prefeitura do Recife, principalmente com a candidatura João Paulo, o partido se viu envolto em uma disputa entre lideranças principalmente entre João Paulo e Humberto Costa.

E é dessa disputa que nascem coisas como a candidatura João da Costa para a prefeitura em 2008, e Humberto Costa para o Senado em 2010. E, no meio disso, Eduardo Campos e a tática do dividir para conquistar.

João da Costa não era o melhor nome do partido para a prefeitura em 2008, mas João Paulo temia perder o único espaço de poder. Assim, como Humberto Costa não era o melhor nome do PT para a disputa do senado em 2010, mas Humberto temia o crescimento de João Paulo. Mas a conta de ambas as candidaturas foi cara para a legenda.

João da Costa fez um péssimo governo, e João Paulo perdeu grande parte de seu capital político ao cacifá-lo como sucessor de sua bem avaliada candidatura. Humberto, diante de um partido rachado, procurou o apoio externo de Eduardo Campos.

Quando chegaram as eleições municipais, João da Costa era o bode na sala, pois ele não ganharia a reeleição. Aliás, não ganharia nem eleição de síndico de prédio. O partido já estava rachado, e o caminho livre para o PSB de Eduardo Campos ganhar a prefeitura e deixar o PT quase do mesmo tamanho que tinha em 2000, antes de João Paulo ser eleito prefeito.

O PT precisa que a influência de Campos diminua, mas não tem cacife para fazê-lo com uma candidatura isolada. Sem falar na necessidade do PT agradar aliados para manter os apoios na esfera federal. A sensação de terra arrasada é tão grande que reuniu os rivais João Paulo e Humberto.

O que faz o PT? Tenta reconstruir o capital do partido? Não. Junta-se com um candidato que é a personificação do que até há algum tempo atrás era tudo o que PT se dispunha a ser contra.

Um exemplo desse processo eu escutei de um conhecido. Eu morava próximo de uma área carente, e o presidente da Associação de Moradores era dono da academia onde eu treinava.

Bem, logo após vencer a eleição, o dono da academia cumpriu sua primeira promessa de campanha: mudou o estatuto da associação. Acabou com as reeleições ilimitadas que permitiam que uma pessoa se perpetuasse no poder, transformando a localidade em um feudo. O líder em questão venceu com o apoio do PT.

Após a vitória, o, naquele momento, recém-eleito presidente da tal Associação teria ido até a sede do PT para usar a máquina de fotocópia. Chegando lá, encontrou um cacique do partido, e explicou a primeira medida tomada.


E o que ele escutou? “Burro”. A razão? Aquela era uma área estratégica para o PT, e seria importante sempre ter alguém ligado ao partido por lá. O líder em questão pediu então para usar a máquina de fotocópias e o tal cacique disse, logo em seguida, pra um funcionário: “Vê o que esse tabacudo aqui tá querendo”. Precisa dizer mais algo sobre o tema?

terça-feira, 25 de março de 2014

A Gestão de Pernambuco e a ConGESTÃO da Caxangá: Imagina na Copa

Fala-se muito do modelo de Gestão do governo Eduardo Campos. Só falta o governador começar a chamar o cidadão de colaborador como aquelas redes de hipermercados tratam seus empregados que trabalham em condições precárias em domingos, feriados etc.

Essa gestão, embora muito propagandeada, parece não surtir efeito. A educação não é das melhores, e o professor não ganha o piso estipulado pelo governo federal. Na saúde, ao invés de reformar os hospitais regionais, o governador construiu três hospitais nas principais vias de acesso ao Recife.

Ou seja, ao invés de ser atendido em hospitais equipados na sua região, o doente, ainda que em vias de falecer, é obrigado a viajar até a Região Metropolitana do Recife. Bem, a gestão de marketing é boa não há como negar.

Mas, um belo dia, a gestão começou a afetar-me de maneira direta. A gestão passou, a partir daí, não mais a ser uma propaganda que considero enganosa e me aborrece, mas um estorvo no meu cotidiano. Ainda que eu tenha certeza que quem é obrigado a estudar em um colégio estadual ou precise de um hospital no interior sofra mais do que eu. E tal como o K. de O Processo, sinto-me incapaz de fazer qualquer coisa para me defender diante dos absurdos impostos no meu cotidiano.

Essa pedra no meu caminho, e de todos que são obrigados a percorrer o mesmo trecho que eu, chama-se Avenida Caxangá. As obras nessa via, a maior em linha reta da América Latina segundo a mística recifense, já duram mais de dois anos.

A manzanza começou na administração do petista João da Costa que, claro, também não parecia muito determinado em terminar a obra. A intervenção consiste na instalação do sistema BRT (Viagem Rápida de Ônibus) e a construção de um elevado, e faz parte do pacote de obras visando a melhoria da mobilidade para a Copa do Mundo.

Mas o Mr. Gestão prometeu a todos que Geraldo Júlio, o homem que reinventou Pernambuco, o demiurgo por trás da gestão, iria resolver todos os problemas deixados por João da Costa no Recife. Um ano de três meses depois do demiurgo sentar na cadeira de prefeito, e pouco foi feito na Caxangá, e provavelmente nas outras vias sob reforma.. Falo da Caxangá por passar essa Avenida diariamente.

As paradas de ônibus do BRT, uma obra simples para uma empreiteira, ainda não foram terminadas. São de dez a doze vãos de concreto e vidro de uma simplicidade arquitetônica tal que não justifica que levem um ano e três meses para que sejam concluídas.
Parada de Ônibus pra BRT. Obra de complexidade tal que vai completar dois anos.


Sem falar no elevado perto do Hospital Barão de Lucena que é desnecessário, apenas tornará a rua mais escura e perigosa sem resolver o problema do transporte público que passa pelo número de ônibus à disposição, e não pelo fato de os ônibus puderem apressar a viagem pulando um sinal de trânsito. O custo não justifica o benefício.

O Elevado construído para que os Ônibus pulem um mísero sinal

Entendo que alguns benefícios geram transtornos. Mas o transtorno se alongou demais, e ninguém enxerga os benefícios. Andar pela via tornou-se uma via crucis. O trânsito está em conGESTÃO ad infinitum. Da última vez que viajei de ônibus, em um trajeto de mais ou menos 2km, no meio da tarde, eu escutei um álbum inteiro do Sepultura (uns 49 min de duração).

Minha sobrinha, usuária assídua do transporte urbano fez o trajeto entre a UFRPE e o Hospital Barão de Lucena em, pasmem, duas horas. Em outra oportunidade, ela levou o mesmo tempo entre a UFRPE e o Parque de Exposição de Animais. Estamos a 79 dias da Copa do Mundo e, provavelmente, a obra não será entregue a tempo.

Se você anda de bicicleta, como eu, a Caxangá transforma-se em uma aventura. Como a faixa para os ônibus estão em reforma, eles passaram a andar no lado direito da Caxangá, justamente onde transitam as bicicletas. Se antes havia três faixas, agora há apenas uma, tornando o trânsito na Avenida uma verdadeira guerra. No trecho onde o elevado está sendo construído, há apenas uma faixa à disposição.

Eu tento ser uma Poliana da vida e pensar de forma positiva, tipo: “O transtorno passa, o benefício fica”. Mas o dia do benefício nunca chega, só ficamos com o transtorno. É esse tipo de descaso que levanta suspeita sobre se para acelerar as obras não serão feitas licitações em regime de urgência. É ano eleitoral. É bom que fiquemos de olho.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Olavismo, Doença Infantil do Direitismo

Acredito que sou um sujeito aberto ao debate. Pelo menos, essa é autoimagem que nutro. Converso e debato com quase qualquer um: liberal, anarquista, conservador (até certo ponto), comunista e por aí vai. Quando digo quase qualquer um é porque evito cair na falácia do respeito a qualquer posição. Demófobos, xenófobos, homofóbicos, nazistas, stalinistas e loucos de qualquer matriz estão excluídos da lista de pessoas com quem, para mim, é possível conversar sem que meu estômago embrulhe.

Também é extremamente difícil debater com quem sofre de dissonância cognitiva, aqueles que se apegam a uma crença e não a largam mesmo diante de qualquer evidência contrária. Todas as fontes que contradizem os postulados de sua crença são manipuladas ou não-confiáveis. Esse tipo de debatedor geralmente sofre da síndrome do pombo enxadrista, quando se vê em uma posição difícil joga as peças no chão, defeca no tabuleiro e bate as asas em sinal de vitória.

Com a internet e a possibilidade de debater e trocar ideia com qualquer um, você acaba encontrando todo tipo de corrente. Entre o pessoal de direita há uma corrente que, se não é levada a sério, faz barulho: os olavistas, como chamo os seguidores de Olavo de Carvalho, pensador de direita. Aliás, de direita não, de ultradireita. Muitos direitistas que mal conhecem a obra do Olavo podem ser classificados como olavistas.
Parece um intelectual francês pós-estruturalista, mas é só o Olavo de Carvalho

Acredito que muitas pessoas criticam o Olavo por suas posições excêntricas como sua defesa da astrologia, do geocentrismo e seus ataques a teoria da relatividade. Ou pelo fato de ele se julgar filósofo sem ter frequentado qualquer curso de filosofia, inclusive dando aulas sobre o assunto. Ora, acho estranho alguém precisar de um diploma para filosofar, e se alguém quer pagar para assistir às aulas do Olavo, é problema do aluno.

Alguns desses pontos de crítica realmente são cômicos. Mas o que chama atenção no olavismo é que ele moldou um pacote de ideias onde cada um pode pegar o que lhe interessa, excluindo até mesmo os devaneios do pensador sobre as ciências naturais.

É uma linha de pensamento paranoica que possui várias características da síndrome do pombo enxadrista, muito útil para quem se vê em desvantagem em um debate. Sua praticidade consiste no fato de que é só jogar essas ideias em um debate, e repeti-las ad nauseam contra qualquer evidência que o pombinho vai se sentir bem e nunca desfavorecido depois de debater com alguém. Assim, ele vai sempre renovar suas forças para repetir novamente e novamente as mesmas estultices, já que vai tomar a desistência daqueles que estão sem saco para ouvi-lo como vitória.

Vamos aos pilares do Olavismo:

1. Os Comunistas dominam o mundo e estão a ponto de tomá-lo, pois qualquer um que não seja de extrema-direita é um comunista. Mesmo a Globo, a Veja, O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo e o FHC. Gramsci é o autor que ensinou aos marxistas como conquistar corações e mentes. O italiano com cara de Nerd é perigosíssimo. Para Olavo, os militares de 1964 não eram suficientemente direitistas, eram titubeantes, uns frouxos.

O sr. FHC foi cúmplice da criação e desenvolvimento protegido do Foro de São Paulo. Se algum palpiteiro acha que o tucanato é "direita", então é alguém que não merece atenção nem por um segundo.

LEITOR: Olavo, qual é o interesse da grande mídia ao esconder da população a existência do Foro de São Paulo?
OLAVO: Quase todas as redações de jornais e canais de TV neste país são chefiadas por comunistas e seus simpatizantes. Isso responde?


Em 1964, o povo pediu que os militares livrassem o país do comunismo, não que assumissem o poder por vinte anos. Eles assumiram o poder por vinte anos, e, em vez de acabar com o comunismo, deixaram-no crescer à vontade contanto que não apelasse à violência armada. Acabaram com a democracia que prometiam defender e afagaram a cabeça inimiga que prometiam cortar. Agiram assim por medo de se autodefinir ideologicamente, por desejo de parecer neutros e infinitamente superiores às "paixões" (assim as entendiam) da política civil. Decorrido meio século, a ameaça comunista está mais perigosa do que nunca, fortelecida por uma audácia incomum e pela apatia de seus possíveis adversários. E até hoje não vi nenhum militar examinar seriamente os erros do regime instalado em 1964 para evitar que se repitam. O principal desses erros foi encarar o comunismo tão-somente como ameaça armada, não como guerra cultural e ideológica. Daí resultaram, de um lado, as ilegalidades cometidas contra os comunistas e, de outro, o sucesso da "revolução cultural" gramsciana que até hoje aliás usa essas mesmas ilegalidades como pretexto publicitário altamente convincente. Se os mesmos erros forem cometidos de novo, veremos a história repetir-se em sentido inverso da famosa fórmula de Karl Marx. A farsa se repetirá como tragédia.



2. O comunismo só prospera na América Latina graças ao Foro de São Paulo, um encontro mequetrefe de partidos e organizações de esquerda que nunca apitaram nada. Mas no Olavismo seus integrantes são uma espécie de templários, prontos a agir no momento certo e dominar o mundo no melhor estilo Pink e Cérebro.

3. O Gayzismo está a espreita. Há uma maciça propaganda nos grandes meios de comunicação com o maligno objetivo de fazer com que todos tornem-se homossexuais. Os olavistas temem o dia que os “homens de bem” serão obrigados a sodomizar e serem sodomizados por outros homens, e as “mulheres direitas” obrigadas a fazer a famosa frentinha tão bem descrita pelo gênio da música popular João do Morro.


Eu me deparei com a seguinte loucura em fórum de internet sobre futebol nesse fim de semana: os meios de comunicação brasileiros (todos governistas inveterados) estavam, em conluio com o PT, confiscando informações sobre a situação da Venezuela, pois o governo brasileiro tem afinidades com o Maduro.

Em primeiro lugar, é preciso um grau absurdo de sandice e de incapacidade para interpretar textos para afirmar que Globo, Grupo Abril, Estadão e Folha de São Paulo são governistas. Segundo, quem conhece como funciona uma redação sabe que as notícias locais e, portanto, mais próximas da realidade do leitor, sempre terão prioridade de publicação. Há coisas como gastos absurdos na Copa, Black Blocs, morte do cinegrafista da Band, as quais os meios de comunicação resolveram dar mais atenção. Terceiro, desconfio que há um controle da informação que parte da Venezuela e que dificulta que essa informação chegue ao exterior. O twitter reportou dificuldade em subir fotos vindas da Venezuela para seus servidores.

Nessa loucura toda, notei os traços do Olavismo: (1) todo mundo que não é de extrema-direita é comunista e apoiador do governo, (2) a solidariedade entre integrantes do Foro de São Paulo e (3) só não falaram do gayzismo por falta de oportunidade.

Mas nesse mesmo fórum, vi coisas risíveis como gente defendendo a necessidade do golpe de 1964, e depois de algum tempo se dizer defensor da liberdade de expressão com direito a citar uma frase de Voltaire que na verdade não é dele.

Veja as táticas de Olavo de Carvalho para vencer o debate contra um “Comunista”. Por isso, os olavistas sofrem da Síndrome do Pombo Enxadrista. Argumentar.... isso não adianta. “Comunistas” são psicopatas. É preciso humilhá-los até porque como reconhece Olavo, a argumentação é um campo onde se torna muito difícil vencê-los.

A luta comunista não tem a eficiência de um plano racional, mas a de uma exploração astutamente racional e fria (ela própria psicopática) da irracionalidade. O comunismo expande-se não como um sucesso crescente, mas como uma epidemia de insanidade incontrolável, que tanto mais se aplaude e angaria aplausos quanto mais majestosos os fracassos que produz. O poder de persuasão comunista não deriva de uma superioridade argumentativa ou mesmo propagandística, mas da força penetrante, atemorizante e hipnótica que os psicopatas têm sobre as pessoas normais.

Contra o fascínio comunista, só uma coisa funciona: o desmascaramento psicológico, a humilhação constante, repetida e impiedosa. O psicopata não tem senso moral interno, mas é hipersensível à humilhacão pública, à revelação dos seus ardis psicológicos mais secretos.

Quando um sujeito desses sente que suas artimanhas psicológicas estão falhando, ele não tem mais remédio senão abandonar o ringue, ao menos temporariamente. Mas, se você se engalfinha com ele numa discussão de "idéias" ou de "propostas", só o está ajudando a dar mais verossimilhança à farsa psicológica que é o terreno onde ele se sente melhor.

Exemplo de humilhação que funciona, que a "direita", doente de bom-mocismo, jamais usa: Durante as campanhas eleitorais, ninguém perguntou ao Lula por que ele continuava falando errado como o povão mas aprendera a se vestir como um grão-senhor, até aparando a barba e polindo as unhas. Exibi-lo em público como um consumista fútil e meio bichoso teria demolido a segurança psicológica dele.

Quando falo em humilhação, é preciso que ela seja constante e repetida. Onde quer que o sujeito apareça, deve ser desmantelado psicologicamente de novo e de novo. Dei alguns exemplos de como se faz, reduzi mesmo algumas dessas criaturas a um longo silêncio, mas não posso produzir esse efeito na QUANTIDADE necessária. Seria preciso muito mais gente. Acho, por exemplo, que a enxurrada de mensagens arrasadoras na área de comentários dos artigos do Altman teve um efeito muito bom.

Muitos dos tagarelas comunistas, como explica o Dr. Andrew Lobaczewski, não são psicopatas, são apenas seus imitadores histéricos. Estes podem ser atemorizados mais facilmente, pois têm uma carência afetiva real e necessitam de aprovação. Dona Dilma, por exemplo, não é psicopata e por isso mesmo é bem vulnerável. Já o Zé Dirceu...

Agora, eu fiquei preocupado. Seria eu um psicopata ou um histérico? Só uma solução para que eu resolva esse dilema shakesperiano de ser ou não ser um psicopata: submeter-me à escala Hare (aqui) e descobrir o meu índice de maldade. Será que eu sou tão mau quanto o Stalin?

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Rodoviária x Aeroporto: Como Locais de Passagem Tornam-se Espaços de Distinção

Passei por uma experiência interessante no último dia 6, meu aniversário, viajei para Aracaju de ônibus. Eu já tinha feito o trajeto, usando o mesmo meio de transporte em 2007, quando fui a um congresso. Existia apenas um voo que ia de Recife a Salvador, e em seguida, o passageiro pegava uma conexão para Sergipe. Agora, há um voo que faz o curto, para um avião, trajeto sem conexões.

Poucos dias depois me deparei com a notícia de que uma professora de Letras da PUC-RJ tinha postado no facebook uma foto tirada e publicada sem autorização de um passageiro que apanhara o mesmo voo que ela. Na postagem, a acadêmica questionava “Aeroporto ou Rodoviária?”. A razão do questionamento? O fotografado, em função do forte verão carioca, decidiu viajar de tênis, camiseta regata e bermudão.

Para completar o “belo” quadro, um comentarista soltou a seguinte pérola “o glamour foi pro espaço”. O advogado se sentiu exposto (seu direito à própria imagem fora violado, fora os comentários nas redes sociais de pessoas que ele nem conhece).

Resolvi ir de ônibus porque decidi de última hora viajar para comemorar meus 33 anos com minha namorada que mora a mais de 500km de distância da minha casa. Geralmente, compro as passagens com maior antecedência, e o preço é praticamente o mesmo do ônibus.

A ida e volta sai R$ 50,00 reais mais cara, porém eu economizo, no mínimo, 14 horas da minha vida somadas a ida e a volta. A única vantagem, além do preço quando você viaja em cima da hora, é que eu chego em Aracaju logo de manhã, enquanto viajando de avião, eu chegaria no meio da tarde. Como a viagem de ônibus é de madrugada, e eu fui dormindo, não senti que perdi tanto tempo. Além disso, quem viaja de ônibus está sujeito a assaltos na estrada.

A Rodoviária é um lugar mal cuidado, o banheiro tem um forte odor de urina, e o ambiente passa um aspecto sujo, diferentemente do aspecto asséptico dos Aeroportos. Contudo, a rodoviária é um local mais vivo e interessante. Desde as lojas de bugigangas até as lanchonetes.
Criatividade é isso

Comi uma tapioca com café preto antes de viajar por módicos R$ 6. Em um aeroporto, eu iria comer um fast food letra E, ou uma tapioca metida a besta por no mínimo R$ 15,00. Achei as pessoas na rodoviária mais espontâneas e interessantes de serem observadas.

Tinha um grupo torcendo para o Sport que jogava pela Copa do Nordeste contra o Botafogo-PB. Deixaram eu me juntar a eles para prosear sobre futebol e sobre a rodada da Lampion's League. Sei que é subjetivo, mas nunca tive a mínima vontade de conversar com alguém na sala de embarque de aeroporto.

Pela minha experiência, a Rodoviária deveria ser alvo de maior atenção. Pois, se alguém quiser visitar Caruaru, Garanhus, Gravatá, provavelmente passará pela Rodoviária, e não vejo porquê quem viaja de ônibus não mereça conforto. Aliar conforto à espontaneidade do local seria uma ótima estratégia para gerar renda no local.

Nos últimos anos, as pessoas passaram a usar o transporte aéreo para trajetos que anteriormente eram feitos prioritariamente por via terrestre, em razão do preço das tarifas. As companhias aéreas diminuíram, por uma série de razões, o valor das passagens e a população experimentou um aumento de renda. Um contingente grande passou a usar avião. E é nessa inclusão via consumo que vemos o espírito reacionário de camadas da população.

O aeroporto é um local de passagem, onde embarcamos e desembarcamos de voos, o shopping é um local de compra e consumo. Mas no Brasil, são espaços de distinção social. Na Alemanha, por exemplo, qualquer um pode viajar de avião. Há tarifas muito baratas em voos onde há limitações de bagagem e data de marcação. Minha sobrinha fez intercâmbio por lá, e contou que viajou bastante porque era em conta. Aeroporto não é local de Glamour.

Lembro-me quando sai do Rio de Janeiro e fui morar no interior de Pernambuco. O local de diversão era a praça. Um local aparentemente bastante democrático, pois todos se dirigiam para lá. Eu sempre detestei andar de sapato social, e gosto de tênis. E era de tênis que eu ia até a tal praça com o objetivo de conversar e encontrar as pessoas aos domingos.

Avisaram-me que por lá quem usava tênis era visto como “maloqueiro”, e que o negócio, para ser bem quisto, era eu usar camisa e sapato social. A partir daí, passei a perceber que a praça era dividida por setores informais. Em um setor, ficavam os chamados “maloqueiros”, em outro os evangélicos, e tinha outro para os “boyzinhos”. Esse pensamento envolvendo os setores da praça no interior onde vivi é o mesmo da oposição Rodoviária x Aeroporto.

Voltando ao caso da catedrática que zoou o look do companheiro de viagem, é interessante notar que o sujeito exposto pela brincadeira é advogado e procurador de um município de MG. Várias pessoas mandaram mensagens para ele por causa do sucesso que a brincadeira de mau gosto fez nas redes sociais. Foi assim que ele soube da história, e já avisou que irá procurar reparação judicial. Azar de quem desavisadamente brincou com um expert em justiça.

A douta senhora é acadêmica de letras. Geralmente os PPG's ligados a letras têm duas especialidades: Análise do Discurso e Teoria da Literatura. Em ambos os casos, um autor é obrigatório: Pierre Bourdieu. Portanto, a autora da brincadeira conhece a obra “A Distinção” que mostra que questões como Glamour, Estilo etc. são divisores sociais usados para reconhecer e separar as pessoas por classe.

Antes que me chamem de politicamente correto. Vou pontuar minha opinião sobre o tema. Ainda que reconheça excessos no politicamente correto, considero-o um avanço, pois é um clamor por reconhecimento por parcelas que não recebiam o devido respeito social anteriormente. Falando no “popular”, o politicamente correto manda o seguinte recado: sacanagem tem limite. A catedrática pediu desculpas e apagou a postagem, mas já está feito.

Quanto a quem reclama de que não pode mais zoar livremente “preto, pobre, puta e nordestino”, que o mundo está um saco e todas essas críticas de quem não tem imaginação para fazer outro tipo de brincadeira, penso que só mostra como as ideias liberais no Brasil estão sempre fora do lugar. Pois (isso eu li em um blog, mas não lembro o autor da frase nem em qual blog eu li a frase portanto se o autor, por um acaso ler esse texto, considere-se citado) se transformam na luta pelo privilégio de quem está sambando na cabeça dos outros continuar a sambar por sobre a cabeça alheia sem ser incomodado.